lembro exatamente do que pensei quando voltei pra uma festa que já tinha acabado.
"nossa, que cara mais idiota!"
Eram mais de quatro da manhã minha cabeça já não funcionava mais no mesmo ritmo. E eu voltei. Voltei pra algo que já tinha terminado. Para falar com um idiota. Lembro como tivesse acontecido há dois minutos atrás: do nada arrancando os óculos da cara e atirando no chão. Assim, por nada. E, cá entre nós, que tipo de babaca usa óculos de sol às cinco da manhã?
Então, olhei pro ray-ban poser, que por sorte não se espatifou no chão, e só conseguia pensar "que diabos eu tô fazendo aqui? melhor sair daqui duma vez, melhor sair daqui duma vez". Olhei desgostada pro óculos atirado no chão, balancei a cabeça e te olhei, pela primeira vez, daquele jeito bravo, que eu viria a te olhar tantas outras vezes. Só pode ter sido a tua felicidade, aquela cara de criança grande faceira, por estar me vendo de novo que me desarmou e me fez ficar. Então, fiquei. Fiquei até a noite virar dia.
E muitas noites e dias se passaram assim, terminando, começando e a gente ali, de tempos em tempos, fazendo objetos voar: maços de cigarro, bolsas, telefones, sapatos. A impulsividade deu asa a um bocado de coisas e na aterrissagem fui eu quem derrapou na neve dos próprios sentimentos. A frieza calculada ficou difícil de sustentar quando o peso e o desconcerto de se ver em outra pessoa foi insuportável. Aí eu saí correndo, rasguei fotos, amassei cartas, fui embora. Chamar a atenção foi coisa que a gente sempre soube fazer muito bem. O mundo, às vezes, foi palco pequeno demais pra nós dois.
Mas algo me diz que, no fechar das cortinas, te deixei tomar conta do show.
Porque é quase verão e sou eu quem sente frio.